Território e identidade travesti
Ao entender o contexto de ser travesti na quebrada, Marci usa várias linguagens e narrativas que atravessam a sua existência, para distribuir pelo Grajaú e pelas periferias de São Paulo suas inquietações, com sua escrita e sua fala, a fim de alcançar outras pessoas, pautada pela criação de outras perspectivas sobre ser LGBTQI+ nas bordas da cidade.
Ela também questiona o termo ‘trans’ e devido à reprodução de narrativas, a produtora cultural ressalta que há uma necessidade de compartilhar conhecimento de forma coletiva no território e traduzir alguns conceitos ainda pouco difundidos na quebrada. “Como as pessoas falam essas narrativas nas periferias? Aprendi tudo isso e tento passar. Hoje eu sou uma mulher travesti no Grajaú e me sinto muito mais segura aqui e nas quebradas de São Paulo do que no centro da cidade”.
Marci explica que ser travesti não é ser trans. Segundo ela, isso abarca transgêneridades, pois trans é uma palavra que vem da Europa, desse sistema médico e jurídico para normatizar, falar o que é, e inclusive como tratar isso. “Eu me reconheço como travesti, me sinto bem como travesti, e me sinto bem como travesti no Grajaú”.
“Com uns dezoito ou vinte, comecei a estudar jornalismo e logo consegui um estágio na área e eu ficava o dia inteiro fora. Nesta época comecei a estudar gênero, e eu me entendia enquanto homem gay. Minha sexualidade vem mais tarde e a minha identidade eu escondi de mim mesma por muito tempo”, relembra.
A articuladora cultural conta que começou a viajar pelo Brasil com o coletivo Coiote, fazendo atividades de literatura libertária, lendo textos e causando discussões sobre gênero, feminismo e educação e nesse processo ela consegue se desprender do padrão do gênero masculino e se reconhecer como Marci, uma mulher travesti.
“Comecei a viajar com o pessoal do Coletivo Coiote, trabalhando com a leitura e discussão de textos libertários, fazendo fanzine e tudo. Aí nesse período foi quando me percebi saindo do padrão desse gênero, quando eu usei saia, quando eu me questionei enquanto homem”, afirma.
Este processo trouxe várias memórias de sua infância quando ela já sentia que não queria ser o menino que todos enxergavam nela. “Eu me lembrei de quando eu ganhei cueca no meu aniversário de criança. Eu chorei muito, muito, muito, e as pessoas preocupadas, perguntando por que eu tava chorando e eu dizendo que queria ganhar tudo menos uma cueca”.
A partir do momento que se abandona essa identidade masculina, ela começa a se ver como uma mulher travesti e não uma pessoa trans, relatando que trans é uma palavra trazida da Europa, usada para normalizar os corpos. “É importante deixar claro que não me reconheço como uma mulher trans, mas sim como travesti, porque existe um apagamento da identidade travesti, assim como as ‘Muxes’ no México são identidades não cisgêneras. As travestis são identidades não cisgênera, então quando a palavra trans vem é pra colonizar um corpo não cisgênero”, conclui.